Copa do Mundo acende alerta para dependência em apostas esportivas e impactos na saúde mental

A Copa do Mundo costuma mobilizar milhões de torcedores em torno da paixão pelo futebol. Nos últimos anos, porém, o aumento da publicidade de apostas esportivas durante as transmissões também passou a chamar a atenção de especialistas em saúde mental.
O receio é que a exposição constante a esse tipo de conteúdo funcione como um gatilho para comportamentos compulsivos, especialmente entre pessoas mais vulneráveis ao chamado transtorno do jogo, conhecido internacionalmente como “gambling disorder”.
O tema ganhou ainda mais destaque nesta semana após a CazéTV anunciar mudanças na forma de divulgar casas de apostas durante as transmissões da Copa do Mundo. A decisão foi tomada depois de críticas nas redes sociais e da abertura de uma investigação preliminar pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), que apura se as ações publicitárias respeitaram as normas de proteção ao consumidor e os princípios do jogo responsável.
Entre os pontos analisados estão a associação entre a paixão pelo futebol e as apostas, a divulgação de ofertas promocionais e a participação de narradores e comentaristas incentivando palpites e apostas durante as partidas. Em comunicado, a Cazé TV informou que adotará “um padrão mais específico e conservador para ativações de marcas de apostas”, reconhecendo que o mercado brasileiro ainda passa por um processo de amadurecimento.
Além disso, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) recomendou a suspensão de ações publicitárias de casas de apostas exibidas durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo 2026 na Cazé TV. No caso, as propagandas regulares permanecem, mas aquelas ações com narradores e comentaristas destacando ‘odds’ e ofertas em tempo real foram suspensas.
Para especialistas, a preocupação vai além da publicidade. O transtorno do jogo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um transtorno mental e comportamental. A condição é caracterizada pela perda de controle sobre o comportamento de apostar, mesmo quando isso provoca prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.
Um dos mecanismos que explicam esse comportamento é o chamado reforço intermitente, bastante estudado pela neurociência. Diferentemente de uma recompensa previsível, as apostas oferecem ganhos ocasionais e imprevisíveis.
Essa incerteza estimula repetidamente o sistema de recompensa do cérebro, favorecendo a liberação de dopamina e aumentando o desejo de continuar apostando, mesmo após sucessivas perdas. Segundo a American Psychological Association (APA), esse funcionamento cerebral apresenta semelhanças com outros tipos de dependência e pode dificultar o controle dos impulsos.
Durante grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo, esse risco pode aumentar. Além da maior oferta de anúncios, surgem promoções em tempo real, apostas durante as partidas e incentivos ligados à emoção do jogo. Especialistas afirmam que a combinação entre entusiasmo, expectativa pelo resultado e facilidade de acesso aos aplicativos pode favorecer decisões impulsivas e contribuir para o desenvolvimento de ansiedade financeira, frustração e endividamento.
Uma revisão científica publicada pelo National Council on Problem Gambling, que analisou mais de 140 estudos sobre apostas esportivas, concluiu que apostadores em esportes apresentam risco significativamente maior de desenvolver problemas relacionados ao jogo do que outros perfis de jogadores. Quando as apostas ocorrem pela internet, esse risco é ainda mais elevado devido à disponibilidade constante e à rapidez com que novas apostas podem ser feitas.
Outra revisão sistemática publicada na revista Journal of Behavioral Addictions identificou que pessoas com problemas relacionados às apostas esportivas apresentam maior impulsividade, sofrimento psicológico, uso de álcool e outras dependências comportamentais. Os pesquisadores também observaram que jovens adultos figuram entre os grupos mais vulneráveis ao desenvolvimento do transtorno.
Os especialistas ressaltam que gostar de futebol ou fazer uma aposta ocasional não significa desenvolver uma dependência. O sinal de alerta aparece quando a pessoa perde o controle sobre o comportamento, passa a apostar valores cada vez maiores, tenta recuperar prejuízos financeiros com novas apostas ou percebe que a atividade começa a afetar o trabalho, os estudos, os relacionamentos e a saúde emocional.
Diante do crescimento das apostas esportivas e da intensa exposição durante competições como a Copa do Mundo, psicólogos defendem que a discussão vá além da regulamentação do mercado. A ampliação de campanhas de conscientização, a divulgação dos riscos e o incentivo à busca por ajuda especializada são considerados fundamentais para prevenir que o entretenimento esportivo se transforme em um problema de saúde mental.
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