Passagem

Um dos trechos mais conhecidos das Sagradas Escrituras nos deixa claro algo que preferimos não pensar: esta vida, aqui nesta terra, é apenas uma passagem. E toda passagem carrega duas perguntas que não têm como ser evitadas.
Passagem para onde?
E como conseguir essa passagem?
O universo tem quase 14 bilhões de anos. A Terra, segundo a ciência, tem 4,5 bilhões. E nós, feitos à imagem e semelhança de Deus, recebemos um período de pouco menos de 100 anos para viver neste planeta e, nesse tempo curtíssimo, decidir o destino da própria eternidade.
Colocado assim, o peso da frase muda de tamanho.
Mas há outra passagem que completa esse pensamento: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.”
Todos nós conhecemos essas aflições. Dificuldades, dúvidas, decepções, raiva, frustração. Ninguém escapa delas. Mas talvez estejamos entendendo esse tempo de forma errada — como se a aflição fosse apenas um obstáculo a ser suportado, e não parte do próprio caminho.
As tentações que enfrentamos existem, entre outras razões, para nos mostrar algo desconfortável: não fomos feitos para sermos escravos das próprias paixões, dos desejos da nossa carne.
E aqui talvez esteja um dos maiores sintomas do nosso tempo.
Basta observar o comportamento de muitos jovens hoje — bebida, drogas, irresponsabilidade, fraqueza emocional, sexo sem compromisso. E surge a pergunta inevitável: isso é culpa deles, ou culpa de quem os formou?
A resposta honesta é a segunda.
Vivemos — e formamos — uma geração superprotegida. E, com o tempo, isso nos fez acreditar que ceder aos próprios impulsos é o caminho natural. Mas o que é natural para uma alma que não pertence a este mundo?
Não me excluo dessa culpa. Sou parte desse erro, e carrego esse pecado.
Durante boa parte da minha vida, também pensei que o natural era simplesmente realizar aquilo que a carne desejava. Até que chega um momento em que somos chamados a ser mais do que responsáveis pela própria carne — chega a responsabilidade pela família.
Uma vez ouvi uma frase que nunca mais me saiu da cabeça. Ela falava sobre três momentos na vida de um homem em que ele não pode errar.
A escolha da esposa — porque será ela quem estará ao seu lado, ajudando ou atrapalhando essa busca pela PASSAGEM.
O nascimento dos filhos — porque serão eles que continuarão a mesma estrada que começamos rumo à PASSAGEM.
E a morte dos pais — porque esse será o momento em que a árvore perde suas raízes, e precisa aprender a fincar as próprias, para não ser arrancada do caminho até o Reino de Deus.
É nesse terceiro momento que muitos de nós, mais cedo ou mais tarde, somos obrigados a crescer de verdade. Enquanto os pais estão vivos, existe sempre um chão que sustenta — mesmo à distância, mesmo em silêncio. Quando esse chão começa a faltar, percebemos que já não há mais ninguém à nossa frente na fila. E aí, um dia, começamos a pensar em outra coisa: que legado deixaremos para quem vem depois de nós.
É nessa busca que a verdade aparece com mais clareza. Não pertencemos a este mundo. E, por isso, é preciso lutar contra ele — não por orgulho ou mérito próprio, mas pela misericórdia de Deus — para alcançar a passagem para o Reino.
Porque lá, longe desta carne que dura menos de 100 anos, está a única conquista que realmente importa: a vida eterna, ao lado d’Ele.
Álvaro Luiz Silva Coêlho
Católico, filho, esposo e pai
alvaro.coelho@icloud.com
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