Dez boletins em dois meses: furtos de cabos afetam obras de iluminação em rodovias de Roraima

Dez boletins de ocorrência foram registrados em um período de dois meses após furtos de cabos utilizados em obras de iluminação em rodovias de Roraima, segundo o empresário Edson Barros, que atua no setor de engenharia elétrica. Os casos têm provocado a retirada e reinstalação da fiação em diferentes trechos, além de prejuízos com materiais e mão de obra.
Um dos pontos citados por Edson é a BR-174, entre os quilômetros 3 e 11, próximo ao bairro Santa Cecília, onde a empresa dele executa uma obra contratada pelo Governo de Roraima junto ao programa Calha Norte do Governo Federal. O projeto prevê a instalação subterrânea dos cabos e, segundo o empresário, alguns trechos precisaram ser refeitos várias vezes após novos furtos.
“Tem trecho que já colocamos cinco vezes e foi furtado cinco vezes. Então, você imagina o custo que isso está trazendo para a empresa, o transtorno para a população e também para o próprio Estado, porque aquilo que foi planejado para ser executado uma vez acaba tendo que ser feito várias vezes”, relatou.
Segundo o empresário, a tentativa de dificultar a retirada dos cabos também aumentou a profundidade da instalação. “A gente começou colocando a 40 centímetros. Depois, por causa dos furtos, começou a colocar a um metro de profundidade. Só que mesmo assim eles estão conseguindo furtar. Então, você começa a ficar sem alternativa, porque o projeto é subterrâneo e você não pode simplesmente mudar para aéreo, já que existe um projeto aprovado e um contrato para ser cumprido”.


Edson afirma que, além do material furtado, a empresa precisa arcar novamente com a mão de obra para refazer os trechos. Ele estima que os prejuízos acumulados na obra da BR-174 cheguem a aproximadamente R$ 400 mil.
“Você tem o custo do cabo, que é uma coisa, mas tem também o custo de abrir o trecho novamente, fazer toda a instalação, testar e fechar. É uma obra que já foi feita e você está tendo que pagar de novo para fazer a mesma coisa”, explicou.
Para o empresário, o tipo de material utilizado também influencia nos furtos. Segundo ele, os cabos de cobre instalados de forma subterrânea são mais atrativos para os criminosos do que a fiação aérea de alumínio, principalmente pelo maior valor de revenda como sucata.
Como referência, o quilo do cobre pode chegar a cerca de R$ 50 no mercado de sucata, enquanto o alumínio fica em torno de R$ 7. Com isso, o cobre pode alcançar um valor de revenda aproximadamente sete vezes maior.


Prefeitura também relata prejuízos
Na Avenida Brasil, trecho municipalizado da BR-174, a Prefeitura de Boa Vista informou que os furtos também levaram à mudança na estrutura da rede elétrica. Neste ano, a fiação subterrânea foi substituída por aérea como forma de tentar reduzir novas ocorrências.
Segundo levantamento da Secretaria Municipal de Conservação Pública, entre dezembro de 2025 e junho de 2026 foram furtados 4.741 metros de cabos de cobre isolado. O prejuízo estimado aos cofres públicos é de R$ 410.250,11.
A Prefeitura informou ainda que os furtos não representam apenas a perda dos cabos. As ocorrências também danificam caixas de passagem, eletrodutos, conectores, quadros de comando e outros componentes da rede. Em alguns casos, luminárias de LED e equipamentos eletrônicos também são comprometidos.
De acordo com a secretaria, para restabelecer a iluminação é necessário mobilizar equipes técnicas, veículos operacionais, substituir materiais, realizar testes elétricos e recompor a infraestrutura danificada, aumentando o custo da manutenção. Diante da situação, “a Prefeitura orienta que a população comunique movimentações suspeitas envolvendo a rede de iluminação pela Central 156, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados”.
‘Chega um hora que precisa de segurança’




A mesma situação, segundo Edson, também é registrada em trechos da BR-401 e da RR-205. No caso da rodovia estadual, por exemplo, ele afirma que outra empresa responsável pelo serviço também precisou lidar com a retirada de cabos e alterar a forma de instalação da fiação em alguns pontos.
Segundo o empresário, a adoção de medidas técnicas, como aumentar a profundidade dos cabos, ajuda a dificultar os furtos, mas não resolve o problema quando as ocorrências continuam. Além disso, a segurança dos locais onde as obras estão sendo executadas não pode ficar exclusivamente sob responsabilidade das empresas.
“Não adianta você simplesmente falar para a empresa: ‘olha, coloca os fios mais no fundo’. A gente já está colocando, já está fazendo o que está dentro da nossa possibilidade técnica. Mas chega uma hora em que você precisa de segurança. O trabalhador não pode ser responsável por enfrentar criminoso e a empresa não consegue colocar uma pessoa ali para ficar tomando conta da obra 24 horas”, afirmou.
Conforme o empresário, todos os casos foram comunicados aos responsáveis pela fiscalização das obras e que boletins de ocorrência são registrados.
Edson afirma que faz os relatos também como cidadão e não apenas como empresário do setor. Isso porque a repetição dos furtos prolonga a execução dos serviços e pode deixar trechos sem iluminação enquanto os cabos são repostos.
“Você termina uma obra e, no outro dia, alguém vai lá e leva o cabo. Aí você tem que voltar, comprar material novamente, mandar equipe novamente, parar outro serviço para atender aquele trecho. E a população fica esperando a iluminação voltar. É um ciclo que não termina se não tiver alguma medida de segurança”, reforçou.

Policiamento ostensivo e preventivo
Procurado pela reportagem, o Governo de Roraima informou, por meio da Polícia Militar de Roraima (PMRR), que mantém policiamento ostensivo e preventivo em todo o Estado, incluindo trechos de rodovias estaduais e federais que integram sua área de atuação. Segundo a corporação, o emprego do efetivo é definido conforme o planejamento operacional e a análise das ocorrências registradas.
“No caso específico dos furtos de cabos em obras de iluminação pública, a PMRR atua mediante o policiamento ostensivo, atendimento das ocorrências e adoção das providências policiais cabíveis quando os fatos são constatados ou comunicados às equipes”, disse a PMRR em nota.
A corporação informou ainda que pode atuar de forma integrada com outros órgãos envolvidos na segurança pública, principalmente por meio do compartilhamento de informações sobre locais e horários com maior incidência de ocorrências. Mas não detalhou se há atualmente reforço específico de policiamento nos trechos citados na reportagem, como a BR-174.
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